Nem comunismo nem capitalismo
Por Francisco Meira
A china fere literalmente os compêndios de economia política. Há décadas cresce mais que qualquer outro país do globo – alicerçada em regime comunista –, privilegiando o mercado muito mais que o planejamento. Vê-se ainda que a China impõe a desvalorização do câmbio em benefício das exportações, sem que isso signifique jogar lenha na fogueira da inflação – mantida em nível razoável – tampouco na penalização do seu mercado interno crescente.
Essa política chinesa, ao contrário da dos outros países continentais, não implica prejuízo à poupança, muito menos aos investimentos interno e externo, este último com destaque para as aplicações nos títulos do tesouro americano, fazendo os Estados Unidos se endividar cada vez mais. Assim, contrariando a receita ortodoxa, a China avança em tecnologia e, por conseguinte, na produção de bens de qualidade, obtendo inúmeros ganhos sociais.
A transformação chinesa iniciada na era Deng Xioping demonstra que o pragmatismo está a superar, de longe, a ideologia, desmoralizando ao mesmo tempo os princípios do comunismo e do capitalismo. Nesse encontro de aparente contradição (mercado e ditadura marxista), a China faz nascer o debate de como devem proceder as nações em benefício de si mesmas, sem se importarem com fórmulas alienígenas que ditem um caminho comum, a exemplo do que dissera em bom tom o africano Alioune Blondin Beye, representante do secretário-geral da ONU, na época das Conversações de Lusaka: “Temos a tendência de nos comportar como amnésicos procurando copiar de maneira infantil o que os outros fazem em vez de procurar no nosso passado, no nosso patrimônio histórico, cultural e político as soluções mais adaptadas às nossas necessidades. Ao correr sempre atrás dos outros, ficamos sem fôlego e caímos”.
A China, pois, não vislumbrou soluções para os seus problemas seculares que adviessem dos impérios soviético e americano – ditadores plenos das regras do jogo no auge da Guerra Fria –, buscando naquele tempo, como também hoje, as soluções de acordo com sua história, cultura e tradição política, e, sobretudo, com investimento maciço em educação e infraestrutura, pilares essenciais de qualquer desenvolvimento, fazendo-nos constatar, gostemos ou não, que o resultado de uma política sem precedente não a fez tombar, muito pelo contrário, conduziu o país à condição de segunda economia do planeta.
É mister não copiarmos o exemplo chinês, mas observá-lo marchando com as nossas próprias pernas, sem comunismo, sem capitalismo. Qual a fórmula? Sem dúvida, a educação.
Francisco Meira é advogado e sócio do Escritório Professor José Meira, Caraciolo, Manzi, Malta e Mariano no Recife. Foi procurador federal e consultor da República. chicomeira@josemeira.adv.br

