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Cheia de atitude

Paula Meira construiu uma reconhecida trajetória na área de saúde e agora busca a diversidade da Interne

Por Leonardo Guerreiro, especial para o Guia de Saúde | Foto Bosco Lacerda

A população brasileira está envelhecendo como consequência do aumento gradativo da expectativa de vida. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população com faixa etária acima dos 65 anos deve subir de 14,9 milhões (7,4% do total), segundo dados de 2013, para 58,4 milhões (26,7% do total), em 2060. Nesse período, a expectativa média de vida do brasileiro deve aumentar dos atuais 75 anos para 81 anos.

Agora tente responder: numa realidade assim, qual seria o tipo de negócio promissor na área de saúde? Se você respondeu “home care”, acertou. Foi baseada naquelas informações que a fonoaudióloga pernambucana Paula Meira, então funcionária do Hospital de Câncer de Pernambuco (HCP), começou a mudar sua trajetória de vida.

Aceitou o convite do primo, Waldemir Miranda Neto, que tinha sido convidado por outro primo, Marcelo Borges de Miranda. Os dois, na época (1996), eram gestores do Hospital São Marcos. A proposta era audaciosa: montar um negócio inovador na área de saúde, um home care. Por vivenciarem o cotidiano de um hospital particular, os primos sabiam que aquele tipo de estrutura não tinha condições de atender às necessidades de restabelecimento de pacientes por longos períodos. Somado a isso, fizeram uma análise sobre o número de doentes crônicos, além, é claro, do envelhecimento populacional. Há quase 20 anos, portanto, os três já previam o boom do número de idosos. Some-se a isso a previsão de que países em desenvolvimento, como o Brasil, estariam menos preparados para lidar com essa realidade.

Àquela altura, a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) já havia modificado seu conceito de “saúde”, mudando-o da simples “ausência de doença” para um conjunto de fatores que conduziam a uma situação de bem-estar geral, físico, psicológico e social do homem. E foi no final dos anos 1990 que o mercado de home care experimentou o seu maior crescimento no País. A maioria das empresas do segmento “internação domiciliar” surgiu nesse período.

Naquele momento, com os três na faixa etária dos 30 anos e muita vontade de acertar, ainda encontrariam uma quarta sócia, Gabriela Machado, oriunda do mercado financeiro. Os quatro optaram por trazer um modelo já testado, aprovado e certificado. A ideia levou-os diretamente ao mercado de franquias norte-americano, onde decidiram pela Interim Health Care. Mas a franquia precisava ser adaptada à realidade do local de destino. Em outras palavras, precisava ser “tropicalizada”. “O modelo original era bom para os americanos, mas não funcionaria aqui”, explica Paula. Assim, nasceu, em 1997, a Interne Soluções em Saúde.

Outro ponto em especial moveu a decisão de investimento dos empreendedores: a falta de segurança jurídica na modalidade “seguro de saúde” no Brasil. “No nosso país, você acredita que está comprando algo universal e depois, na prática, descobre que não é bem assim, o que gera uma série de conflitos e, em consequência, intervenções do Judiciário”, afirma Paula. Isso constituiu um nicho de mercado perfeito para ser explorado. Em 1989 veio a iniciativa de regulamentação dos planos de saúde no País. A partir daquela fase, o governo estipulou certas regras: haveria os planos anteriores (chamados de antigos) e os planos novos. A forma de tratá-los seria diferenciada, principalmente na questão dos reajustes.

Passados alguns anos de atividade, com a própria dinâmica do negócio, o grupo pensou em expandir suas ações por outras capitais brasileiras. Era a oportunidade de representar os americanos no Brasil. “Chegamos a abrir em Belo Horizonte e Porto Alegre e planejamos unidades no Rio de Janeiro, em Brasília e em São Paulo”, conta. Foi quando os sócios locais de Paula desistiram de continuar no negócio. “Era 2001 e a economia brasileira enfrentava dificuldades, com taxas de juros a 7% ao mês. O maior comprador de home care, a Sulamérica, suspendeu tudo”, relembra.

“Poucos sabem, mas o mercado de home care não está regulamentado. É uma liberalidade. Eu tenho todas as obrigações para funcionar estipuladas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas o que regula as relações é a livre negociação”, explica a empresária.

Diante dessa nova realidade, restou a Paula rever os planos e reassumir o comando da operação inicial, no Recife, a mais consolidada de todas e onde começou o projeto de expansão. Foi aí que sobressaiu a atitude pessoal da empresária que, com foco, conhecimento do negócio e muita inquietude, transformou a empresa em líder do mercado local – tendo priorizado a organização e a adoção dos princípios de governança desde então – e em um negócio cuja logística é mais complexa do que a de um hospital. “Meus pacientes estão em qualquer lugar da Região Metropolitana”, lembra. Paula liderou o crescimento local da Interne, inclusive, com a mudança do próprio conceito do negócio para “Soluções em Saúde”.

A Interne atualmente oferece sete serviços e emprega 1.200 colaboradores. O olhar empreendedor de Paula Meira mirou na educação. Após adquirir e reformar uma área ao lado da empresa, na Ilha do Leite, no Recife, dotou-a de salas de aula novas onde oferecerá cursos livres, de extensão e de pós-graduação na área de saúde. O local está equipado com biblioteca, laboratório de informática, salas climatizadas, cantina e auditório. “A ideia é qualificar mão de obra para a Interne e para as demais empresas do setor”, esclarece ela, que pretende também investir na moradia de idosos.

Pernambuco Saúde - 4ª Edição
Revista Negócios PE

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